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Malcolm Gladwell: pontos de flexão, detecção de mentiras e a maldição do Da Vinci, comentados por Andrea Iorio.

"Esses três fatores – autonomia, complexidade e relação entre esforço e recompensa – são as qualidades que o trabalho precisa ter para ser significativo."

malcolm gladwell

Malcolm Gladwell é um jornalista Britânico, autor de alguns muitos best-sellers do The New York Times, e uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista times.

Ele começou a sua carreira na The American Spectator, uma revista mensal. De 1987 a 1996, foi escritor científico, e mais tarde chefe do escritório de Nova Iorque do The Washington Post. Atualmente é colunista na The New Yorker. Além disso, os seus primeiros livros The Tipping Point (2000) e Blink (2005) foram bestsellers internacionais e dai ele começou a palestrar cobrando mais de 40 mil USD por palestra. Nada mal!

O seu mais recente livro, Falando com Estranhos, também já é best-seller e é um dos livros sempre presentes na minha mesa de trabalho.

E quer saber uma coisa engraçada sobre ele, que vai além da cabeleira gigante pelo qual também ele é conhecido? `É que ele define os seus livros ótimos “quebra-gelos”em situações sociais, onde você não saber o que falar: simplesmente você pode contar alguma história contida em seus livros, que vai surpreender alguém com temas vindo da psicologia, ciências sociais, comportamento humano e inovação. É muito variado o repertório dele!

Uma coisa eu posso te garantir, esse episódio é uma aventura, cheio de nuances e excelentes reflexões. Sendo assim, para começarmos do jeito certo, vamos analisar uma frase em que ele fala sobre os fatores que fazem algo viralizar. Ouça só.

“Bem, eu estava escrevendo alguns anos atrás e estava cobrindo a epidemia de AIDS. Fiquei muito interessado no tipo de dinâmica interna das epidemias porque elas têm seu próprio tipo de lógica estranha. E começou a me ocorrer que eu não entendia o porquê quando falamos de coisas contagiosas, limitamos nossa conversa a vírus ou doenças.

Existem tantas coisas diferentes como idéias, tendências, letras de músicas e sim, elas são contagiosas exatamente da mesma maneira. No meu livro eu falo sobre a palavra bocejo. Se eu disser a palavra bocejar por tempo suficiente, você começará a bocejar e as pessoas que estiverem assistindo a esse programa começarão a bocejar. Essa é uma palavra incrivelmente contagiosa. Quero dizer, está se espalhando de uma fonte em todos os lugares. Mas ao meu ver existe o mesmo especialmente para produtos, idéias ou comportamentos, e  falo principalmente no livro sobre todos os tipos de comportamentos contagiosos.”

Qual é o segredo para que algo viralize? O que é preciso para que algo se torne popular?

Qual o momento determinante para que algo comece a ter sucesso exponencial e se vire contagioso?

Essas são algumas das perguntas que o Malcolm Gladwell aborda no primeiro livro dele, ou seja Ponto de Flexão, ou em inglês, the Tipping Point: How Small Things can make a Big Difference, em 2000.

E vamos relembrar o contexto do ano 2000. Naquela altura, o mundo tinha acabado de “sobreviver” ao Bug do Milênio e estava em meio à primeira onda de crescimento de negócios da internet. Empresas puramente digitais como Amazon e Google tinham poucos anos de vida, e uma plataforma disruptiva como o Facebook estava prestes a ser lançada a partir de um dormitório de Harvard, pois ele foi lançado pelo Zuckerberg em 2004, mesmo ano do Orkut, e um ano depois do pioneiro MySpace…quem já teve conta lá? Bom, eu tinha e com isso estou entregando um pouco da minha idade, mas tudo bem!

É incrível pensar então como o Malcolm Gladwell previu um mecanismo que seria a chave da virada do jogo de qualquer rede social ou plataforma, ou seja os “efeitos de rede” que já abordamos no episódio do Jack Ma, mesmo antes que elas existissem!

Mas ao final, isso porque o mecanismo da massa crítica, ou ponto de flexão, que para mim são termos intercaláveis, é um fenômeno que sempre existiu, e que foi apenas reforçado pela digitalização. Para meu trabalho no Tinder, esse foi sempre um ponto super importante a considerar: pontos de flexão aconteciam raramente, mas eram os que faziam crescer o negócio não seguindo um pico, de downloads ou de atividade de uso, mas de subir um patamar nas métricas que fosse estatisticamente significativo e estável. Me explico melhor. 

O começo de 2014 foi um período tranquilo para o Tinder no Brasil: estava tendo downloads, e se popularizando bastante entre os usuários de iPhone nos centros urbanos, e do nosso lado, fazíamos campanhas modestas, baratas e de guerrilha, principalmente colando adesivos pela zona sul do Rio e de São Paulo, e tendo grana para patrocinar uma choppada de medicina por mês, mais ou menos, vai. Nos fazíamos copos do Tinder a distribuir nessas festas, e admito, além do trabalho, nos divertimos muito. Ai que chegou a Copa do Mundo no Brasil, e só no mês da Copa, registramos um aumento de mais de 50% no uso do aplicativo, o que é bastante grande. O mecanismo era simples e até esperado: gringos e gringas chegaram no Brasil querendo conhecer Brasileiros e Brasileiras, e vice versa, e isso fazia com que o principal método escolhido fosse o Tinder pois facilitava a vida de todo o mundo. Inútil dizer que a Copa do Mundo foi o grande divisor de águas na história do Tinder no Brasil, e mudou as regras do jogo, pois mesmo após os visitantes terem dado tchau ao Brasil e voltado para casa, milhões de brasileiros e brasileiras ficaram com o aplicativo instalado usando ele, o que o rendia mais atrativo e consequentemente mais pessoas o baixavam…ai se popularizou como uma mancha de óleo, se existe essa expressão em português…pelo menos existe em italiano, você já viu o quão rapidamente se espalha o óleo? Bom, seguindo, sabe quais são os 3 fatores principais e agentes de mudança que estão atrás da viralização e da lei do ponto de flexão?

O primeiro é a “lei dos poucos”, que diz que o sucesso de qualquer viralização social é dependente do envolvimento de pessoas com particulares dotes sociais, seguindo uma distribuição de 80/20, a lei de Pareto…ou seja, será que Malcolm Gladwell já estava prevendo os influenciadores de redes sociais, no mero ano 2000? Mas de fato sempre tivemos influenciadores, só o alcance deles não era tão grande e rápido, mas os tivemos desde os filósofos da antiga roma e Grécia, até os grandes escritores, ou até os Papas ao longo da história. Ou seja, se alguém com forte influência social adota essa tendência ou produto, ela vai gerar um impacto importante para que se alcance um ponto de flexão. 

O segundo mecanismo é o “fator de aderência”, ou em inglês o “stickiness factor”, que representa o contexto específico que consegue fazer uma mensagem memorável e consequentemente retida. Programas para crianças como Sesame Street, super popular nos Estados Unidos, mas como a Galinha Pintadinha aqui no Brasil, ou até o Playkids, plataforma digital da Movile de conteúdos para crianças, tem importantíssimos estudos atrás a absorção desse conteúdo educativo. Fatores como identificação, personalização e polarização, entre outros, estão atrás dessa maior absorção desse conteúdo…ou você não compartilha nas redes sociais uma postagem porque conecta contigo demais, e parece que foi escrita para você? É assim que funciona, e requer muito estudo e preparação. Faço um exemplo prático: em 2015, no Tinder quisemos dar uma brincada nas redes sociais, e começamos a fazer memes, alguns dos quais bastante ousados. Um era a imagem de uns esqueletos, sentados em torno de uma mesa, com a escrita “Minha família esperando o dia do meu casamento”….todo solteiro e solteira se identificou nessa imagem, sendo que a cada Natal ou reunião de família são cobrados por apresentar namorado ou namorada e nunca chegam com ninguém kkkk. Todo mundo se identificou, e isso fez um post despretensioso viralizar ao ponto de hoje contabilizar em torno de 200 mil compartilhamentos, e tendo impactado milhões de pessoas. Usando só o elemento de identificação, combinado ao humor. Nada mais do que isso!

E terceiro e último fator é “o poder do contexto”, que diz que o comportamento humano é extremamente sensível e dependente do contexto e que nos lembra da importância de criar os pressupostos para que algo viralize, seja no contexto empresarial ou no contexto de políticas públicas.

E sabe o que?

A primeira vez que eu li Ponto de Flexão, eu logo lembrei da lei de difusão da inovação. Já conhecia?

Bom, a lei de difusão da inovação fundamentalmente é uma lei que tenta explicar como, porque e a qual taxa novas ideias e novas tecnologias se espalham. Foi introduzida em 1962 atrás de um livro do Professor Everett Rogers, chamado Diffusion of Innovations, e diz que ao final são 4 os fatores que influenciam a difusão de novas tecnologias: a inovação em si, os canais de comunicação, tempo, e o sistema social…o interessante aqui é sobre o último, o sistema social: ou seja, inovação depende muito de capital humano, e não só em sua criação, mas em sua adoção! Porque a inovação deve ser amplamente adotada para se auto sustentar, por exemplo, gerando um negócio lucrativo e sustentável para quem a criou, seja uma empresa ou um indivíduo. 

E na medida que escala, tem um ponto onde essa inovação alcança um ponto de flexão que a faz bem sucedida.  E porque isso é tudo tão importante para pessoas de negócio, como nós? Porque se nós investirmos pesado para escalar nossos negócios e nossas inovações antes de alcançar o ponto de flexão, podemos colocar em risco a vida de nosso negócio. Um venture Capital canadense, o Impression Ventures, aponta ser o motivo número 1 de fracasso de startups o fato de elas escalarem prematuramente. Porque antecipam de 2-3 vezes o momento da escala, escalando quando nao tem massa crítica para adoção. Eu canso de ver empreendedores com MVPs ou produtos recém lançados, torrando dinheiro no Google e Facebook para inflar os números e apresentar o projeto a potenciais investidores, nem se preocupando se alcançaram o market fit ou a massa crítica. 

Isso é jogar dinheiro fora, pois simplesmente não tem suficiente retenção por parte dos usuários…eles entram de um lado e saem do outro, igual esvaziar um balde de água com uma colher furada!

Estudos apontam que você alcança o ponto de flexão com uma inovação ao penetrar de 15 a 18% do mercado, ou seja você precisa crescer além daquele 2% do mercado que pode ser chamado de “inovadores” (ou seja, que sempre estão buscando novas tendências e vão comprar seu produto) e aquele 13.5% que são chamados de early adopters, ou seja os pioneiros na adoção: se você para aqui, você ainda não chegou na massa crítica que nasce ao alcançar também a maioria do mercado. 

E olha que interessante a relação disso tudo com a pandemia, que vai além do fato que justamente toda essa pesquisa do Malcolm Gladwell começou analisando o comportamento da epidemia de AIDS nos anos 90 nos EUA, mas poderia ter bem nascido da análise da pandemia atual pois se comporta de forma semelhante, e mostra como a crise acelerou o alcance de pontos de flexão no e commerce. 

Por exemplo, um artigo de 2018 na revista Retail Customer Experience, previu o ponto de flexão no e commerce de produtos de supermercado em 2025. Isso é mais ou menos quando 20% das vendas totais seriam via ecommerce. Outras categorias já alcançaram o ponto de flexão no e commerce há um tempo: a categoria de livros a alcançou em 2005 graças a Amazon, eletrônicos o alcançaram entre 2008 e 2009, material esportivo em 2016, enquanto roupas devem ter alcançado em 2018 mesmo. Só que uma pesquisa feita sobre os Estados Unidos, de Maio 2020, pós crise, chamada Coresight Research U.S. Online Grocery Survey 2020, aponta a um crescimento de mais de 40% na compra online de supermercado, e 52% dos respondentes disseram que no último ano compraram online. Isso aponta a uma aceleração rápida e um possível alcance de um ponto de flexão na indústria bem antes, o que apresenta otimismo para os players desse mercado, e para quem quer estar. 

Agora, deixe eu pegar um gancho e mudar repentinamente de rumo, assim como o Malcolm faz muito bem: nos falamos de estudos, pesquisas e relatórios, e obviamente eles se baseiam na crença de que as pessoas dizem a verdade. E é isso que acreditamos sempre, não é? Mas o Malcolm Gladwell nos explica no próximo áudio porque isso acontece, e porque isso é perigoso. Confira só.

“Por que os seres humanos são tão ruins em detectar mentiras? E você pensaria que seríamos bons nisso. Você deve achar que a nossa evolução nos ajudaria a ser um especialista em entender quando estava sendo enganado? Acontece que não é verdade. Bem, te mostro uma evidência. Se eu te der uma série de vídeos, metade dos quais são pessoas dizendo mentiras e metade do que ele estava dizendo a verdade, e peço que você me diga qual é o que, você tem uma chance de 52 a 53% da resposta está correta. Então, posso concluir que, a grosso modo, acho que são quase 50, 50. O que você está fazendo é como está entrando no processo com a suposição de que as pessoas estão dizendo a verdade. Então você tem como ponto de partida que a pessoa tá dizendo a verdade. Sua tendência esmagadora é dizer que é verdade. E então, só em um pequeno número de casos, onde  parece uma evidência esmagadora de engano, você está disposto a desafiar essa concepção. Então você está basicamente dizendo verdadeiro, verdadeiro, verdadeiro, verdadeiro, verdadeiro, verdadeiro, verdadeiro, talvez falso. É isso que você está fazendo. E isso é uma característica poderosa dos seres humanos, porque é por isso que conseguimos construir uma sociedade que funcione.”

Se você trabalhasse no mercado financeiro em Nova York na década de 1990 e início de 2000, certamente teria ouvido falar de Bernie Madoff. E hoje, provavelmente também você tem ouvido falar do Bernie, mas nem tanto através de contatos no mercado financeiro, mas pelas notícias na imprensa relacionadas ao esquema dele. 

Ele era um cara super respeitado e que tinha um fundo de investimento que gerava retornos altíssimos aos investidores, mas no fim dos anos 90 começaram a ter boatos sobre um esquema ilícito que ele estava fazendo entre os outros investidores de Wall Street.

Tinha vários elementos apontando a algo ilícito: os retornos eram bizarramente altos, o cunhado dele era o auditor dele, e a estratégia de trading dele não fazia sentido. O Nat Simons, funcionário de um hedge fund, o Renaissance, particularmente ficou suspeitoso e começou a investigar sobre as atividades do Bernie Madoff, pois eles tinham investido no fundo dele e queriam verificar se tivessem que tirar dinheiro de lá ou menos. 

O que a Renaissance fez ao final, foi porém em vez de vender sua participação no fundo, foi que cortaram apenas pela metade. Cinco anos depois, após o Bernie Madoff tendo sido desmascarado como o maior esquema de Ponzi da história, que ao final é uma pirâmide, investigadores perguntaram ao Nat Simons porque apenas vendeu metade da participação. E ele falou: “Eu nunca cheguei a pensar que aquilo fosse fraudulento de verdade”. Ou seja, ele tinha duvidas, mas tinha também a verdade como pressuposto. 

A mesma coisa aconteceu com investigadores da SEC, a Securities and Exchange Commission, que regula a bolsa de valores dos Estados Unidos: eles tinham dúvidas, mas não dúvidas suficientes para poder derrubar o pressuposto da verdade. 

E isso aconteceu com todo o mundo: todo o mundo suspeitava, mas ninguém fez nada porque não acreditava que pudesse ter algo ilícito. 

Tudo exceto uma pessoa, Harry Markopolos, um investigador de fraudes independente, que trouxe para a SEC evidências de fraude por múltiplas vezes desde 2000 até 2008, até que com seus indícios, o Madoff foi preso em 2009 após criar um esquema Ponzi de mais de 50 bilhões de Dólares. 

Se formos pensar, isso aconteceu inúmeras vezes ao longo da história: em 1938, Neville Chamberlain, então o primeiro ministro britânico,estava muito preocupado com as declarações belicosas do Hitler, que queria invadir os Sudetos, a parte da Tchecoslováquia que falava alemão, e criou e implementou um plano louco, chamado Plano Z, que era de ir de avião até Alemanha e exigir um encontro com o Hitler. E o Hitler era extremamente inacessível na época, e quase não tinha encontrado pessoalmente nenhum outro líder mundial. E sabe o que? Através vários contatos diplomáticos conseguiu, e em Setembro de 1938 foi de avião até Munich e as 5 da tarde encontrou o Hitler. 

Na discussão, teve um certo momento onde o Chamberlain perguntou para o Hitler, através de um intérprete, se realmente os Sudetos era tudo que ele queria, e nada mais além deles. E o Hitler respondeu que sim. Chamberlain olhou atentamente nos olhos do Hitler, e concluiu que podia acreditar nele. Que erro terrível! O dia seguinte voltou pra Inglaterra, e se ridicularizou para a história ao declarar que o Hitler é um homem de palavra….sabemos como foi na verdade. 

Agora, as negociações de Chamberlain com o líder alemão são consideradas umas das grandes tolices da Segunda Guerra Mundial. Mas ao final, o Chamberlain não agiu diferente do que a maioria de nós age, conforme o Malcolm Gladwell fala no audio anterior. 

Chamberlain estava apenas agindo na mesma premissa que todos nós seguimos em nossos esforços para interpretar estranhos: acreditamos que as informações coletadas numa interação pessoal sejam excepcionalmente valiosas. 

Você contrataria uma babá para seus filhos sem encontrar com ela primeiro?

Contrataria uma pessoa estratégica para o seu time ou sua empresa, sem conhecê-la pessoalmente primeiro? 

Você pode pensar que talvez o Chamberlain estivesse determinado a ver o Hitler como quer ver, independente dos indícios de seus olhos e ouvidos. Mas a verdade é que esse padrão de dar a prioridade á verdade está presente e se manifesta por toda parte. 

E de novo, isso não é necessariamente apenas ruim pois a confiança está a base de nossos mecanismos sociais e da nossa colaboração.

Pense bem: confiança é o que rege nossas economias, pois temos que ter confiança que o pedaço de papel que temos na mão vale algo. Sem confiança, não existiria nenhuma transação que não fosse cara a cara em tempo real, e não existiria comércio mas tudo se basearia no escambo. E isso vale para nossas relações familiares e pessoais também. É o verdadeiro colante da sociedade humana, e esse presupposto de confiança é que nos faz colaborar em larga escala. 

Mas é extremamente perigosa essa suposição, pois pode levar a situações perigosas, na vida e nos negócios. Pense em questões de fraudes como a do Bernie Madoff, caso aconteça na sua empresa. Ou como no caso da Enron, um dos maiores casos de fraude no mundo corporativo da história.

Mas olha que engraçado nisso tudo: se você acredita que a forma como um estranho se expressa e o jeito como agem, são uma pista confiável sobre o que ele sente, então você vai provavelmente cometer um erro.

Tem um romance escrito no começo da década de 1940 pelo filósofo Franco-argelino Albert Camus, chamado O Estrangeiro, onde a narrativa começa com o recebimento de um telegrama por Meursault, o protagonista, comunicando o falecimento de sua mãe, que seria enterrada no dia seguinte. Ele viaja então ao asilo onde ela morava e comparece à cerimônia fúnebre, sem, no entanto, expressar quaisquer emoções, não sendo praticamente afetado pelo acontecimento. Acontecem várias coisas no meio, e Mersault mata uma pessoa. Durante o julgamento pois ele é preso, a acusação concentra-se no fato de Meursault não conseguir ou não ter vontade de chorar no funeral da sua mãe. O homicídio do árabe é aparentemente menos importante do que o fato de Meursault ser ou não capaz de sentir remorsos; o argumento é que, se Meursault é incapaz de sentir remorsos, deve ser considerado um misantropo perigoso e consequentemente executado para prevenir que repita os seus crimes, tornando-o também num exemplo.

E sabe o que isso me lembra muito? De um outro caso que inclusive está no livro de Malcolm Gladwell, Falando com Estranhos, que é o caso da Amanda Knox, que obviamente ficou super famoso na Itália pois aconteceu em Perúgia, mas que também aqui no Brasil se popularizou bastante. Resumindo, uma menina inglesa chamada Meredith Kirchner foi achada morta assassinada e ela morava com a Amanda Knox em Perugia, e Amanda Knox, e o namorado dela italiano, foram investigados juntos com um vendedor de drogas que também estava na casa naquela noite. Não vou entrar em detalhes e nem opinar sobre o caso, mas o que o Malcolm Gladwell aponta é que ela ficou no meio da investigação e principal suspeita porque ela se comportava de forma estranha e incoerente após o assassinato. Ela não demonstrou nenhum sentimento nos momentos públicos sobre a morte da amiga, e isso fez suspeitar muito os investigadores. Ela parecia não se importar, e ao final a interpretação que a polícia fez foi que ela fosse culpada, e inclusive ela ficou presa – hoje está solta, morando nos Estados UNidos e continua se declarando inocente e vítima da justiça.

Ou seja, quando é a hora de julgar, nós não somos péssimos detectores de mentiras apenas, mas somos péssimos detectores naquelas situações em que a pessoa que estamos julgando é incoerente! A mesma coisa acontecia com o Madoff: todo mundo que olhava para ele via tranquilidade, e nenhum sinal de culpa, vergonha ou remorso. 

Ou seja, Madoff era incoerente, ele era um mentiroso com a postura de um homem honesto. E combinando a questão da verdade como pressuposto, com a da incoerência, você realmente tem dificuldade em ler as pessoas, e para qualquer negociação, liderança, ou gestão de times, temos que levar isso em consideração.

“Tem em torno de cinco ou seis vezes por ano que vou à biblioteca da Universidade de Nova Iorque e passo alguns dias lá. Apenas dar uma olhada é um termo muito moderado, mas posso dizer que fico pesquisando e lendo milhões de periódicos na maneira mais inesperada que posso, para ver o que tem por aí e ver se algo interessante, mesmo sem um objetivo ou direção claras. O Então é isso que eu faço regularmente. E também por meu trabalho eu dou bastante palestra, e sempre tento conversar com pessoas fora do meu mundinho.”

Nessa época de quarentena, eu mudei meus móveis todos em casa para criar um cenário legal na sala. Montei tudo para que eu pudesse dar palestras online, em pé, como gosto de fazer…não gosto muito de ficar sentado, admito, e estou até considerando comprar uma mesa daquelas que você pode subir e descer ela, para trabalhar sentado ou em pé. Mas enfim, trouxe todos meus estantes de livros juntos, e eles hoje compõem meu cenário. Ai um dia dei palestra para os times da Globo, e tirei uma foto e postei no Linkedin, e uma pessoa me escreveu inbox dizendo: “Nossa, como queria descobrir os livros que está naquele instante!”.

E eu sei que pode até soar engraçada uma curiosidade dessa, mas acredita que eu entendo, de coração? Ou seja, uma das coisas que mais gostava de fazer quando ia, nos bons tempos em que ainda se podia, para casa de amigos, era espionar os livros que tinham em casa: eles dizem muito sobre a personalidade da pessoa, e ao mesmo tempo eu podia descobrir algo interessante aí no meio para minhas leituras. Existe até um aplicativo, o Goodreads, onde você cria suas listas de leituras e em estilo redes social ou listas de Spotify, pode ver também o que os outros estão lendo…eu já fui viciado nisso, e navegava igual um verdadeiro pinterest de livros! Você deve achar que sou meio maluco, né?

Ao final cresci em uma casa cheia de livros, que minha mãe devorava e depois eu lia, e sempre fui bem eclético: passava de um romance do Dostojevski a um livro sobre ciências, de poemas em latim para uma série de crianças que eu li até adolescente chamada Vampiretto, que aqui traduziria como Vampirinho…confesso que não sei se existe aqui, estou curioso de saber: alguém me conta?

Bom, quero aproveitar a pergunta da Gabriela, que inclusive acompanha o Podcast e talvez nos esteja ouvindo, e contar um pouco do que tenho nos estantes: pra começar, tenho que fazer uma confissão, tenho uma estante cheia dos meu livros, as 6 Competências para Surfar na Transformação Digital da Editora Planeta, que tenho em casa para dar de presente e carregar comigo nas palestras ao redor do Brasil, então deve crer que tenha um dedo de poeira em cima pois nem mexi nele. 

Mas vamos aos principais estantes, os que saíram na foto: é bizarra variedade de tipos de livros que estão aí, admito. Tem livro sobre o Estado Islâmico, assim como manuais de gestão e liderança do Jack Welch e Jim Collins, entre outros. Tem livros em italiano, português, espanhol, e até tem uns livros em árabe, da época que eu estudava o idioma e que retomei na quarentena. Tem obviamente um guia em italiano do Brasil da Lonely Planet, assim como os romances turcos do Orhan Pamuk. Tenho livros de fotografia, compêndios sobre mitologia, e até livros sobre o Jiu Jitsu. Enfim, poderia ir pra frente ainda bastante, e certamente tenho mais livros físicos do que no Kindle…admito, gosto de tê-los ai, tocá-los e muitas vezes rabisca-los. Eu tento ser minimalista né, ou pelo menos é o que me conto, mas a verdade que com livro sou bem acumulador. 

Mas porque isso tudo? 

Porque eu tenho o que descobri ser chamado de maldição do Da Vinci, que vem do livro The Da Vinci Curse, do Leonardo Lospennato, que é americano mas certamente de origem italiana com esse nome, e que estudou a fundo a vida do conterrâneo dele, e meu, Leonardo da Vinci.

Qual era essa maldição do Leonardo da Vinci, um dos homens mais criativos da história? 

Fique tranquilo: não é nada paranormal. Se trata apenas do fato que ele tinha interesses demais, e isso dificulta a vida de quem tem isso. Eu tenho! O Malcolm Gladwell certamente tem! O Bill Gates é outro que temos certeza que tem, pois se você pegar um problema da população mundial aleatório de qualquer área e voilà, tem ele trabalhando nisso. 

E também fique tranquilo, se você sentir que isso aplica a você também: essa maldição na verdade é um dos seus grandes pontos de força.

Deixa eu explicar melhor: o subtítulo do livro do Leonardo Lospennato é: Design de vida para pessoas com interesses demais. Eu tenho! As vezes só queria ser menos curioso e ficar menos interessado, para deixar descansar um pouco minha cabeça….mas ela não para. A verdade é que o Leonardo tinha muitos interesses mesmo e talentos também, e é umas pessoa chamada de “polímata”, que vem do grego polimatés, que significa “aquele que aprendeu muito”, e que define pessoas cujo conhecimento não está restrito a uma única área. Em termos menos formais, um polímata pode referir-se simplesmente a alguém que detém um grande conhecimento em diversos assuntos. A verdade é que muitos cientistas antigos foram polímatas de acordo com os padrões atuais.

Você se considera um polímata? Tem interesses variados? Acredito que se você for um ouvinte do Metanoia Lab certamente é, pois esse podcast tenta combinar negócios com filosofia de uma forma bastante original, mas ao mesmo tempo estou curioso de ouvir de você como lida com seus múltiplos interesses, pelo Whatsapp do Metanoia Lab. Mande um áudio por lá. 

Eu pessoalmente, acho que existem inclusive algumas competências humanas que são meio que transversais, diria universais, que todos precisamos independente de nossa área de atuação: algumas são negociação, pois negociamos o tempo todo, e outra é oratória, pois nos comunicamos o tempo todo. Particularmente venho estudando bastante essa última, pois está a base do meu trabalho de palestrante.

Mas voltando ao Leonardo, as áreas de interesse dele contemplavam as seguintes; pintura, escultura, arquitetura, música, ciência, matemática, engenharia, geologia, poesia, literatura cartografia….e mais! E ele também é reconhecido como o pai da Paleontologia e tem sido atribuído muitas invenções, entre as quais a do helicóptero! Para ele não era difícil ter acesso a varios conhecimento pois sempre circulava, como bom homem da Renascença italiana, entre as principais famílias e era acionado por muitos lados.

Mas o que aconteceu, que todos viramos especialistas, e perdemos essa capacidade humana de ser Polímatas? Isso é uma combinação da herança das revoluções industriais, que a cada vez mais precisaram de trabalhos especializados e rotineiros, assim como por outro lado definições claras foram colocadas para definir e proteger profissões, como as de contáveis e advogados.

E isso tudo foi ao longo do tempo reprimindo nosso espírito de polímatas, e fez de algo poderosíssimo do ser humano, uma maldição, pois atrapalha em tudo nossas trajetórias lineares e especializadas! 

O Malcolm Gladwell falou que ele tenta sempre falar com pessoas em suas palestras, e eu aprendi a fazer o mesmo. Inicialmente, nos primeiros meses que me dediquei 100% a atividade de palestrante, eu fiquei pensando: nossa, eu vou ficar por fora das tendências de negócio, pois estou fora de uma empresa grande. E sabe o que? Foi exatamente o contrário. Ao dar em torno de 70 palestras em 2019, eu recebi 70 briefings diferentes, conheci centenas de pessoas diferentes e aprendi sobre os desafios de negócio de cada um deles, em múltiplos setores, desde o agronegócios e cooperativismo, até o setor farmacêutico. 

Tudo isso me lembra as palestras sobre Criatividade do Murilo Gun, não sei quem acompanha mas recomendo demais, onde ele diz que traz inspiração desde livros de criança como Peppa Pig, e varios outros tipos de conteúdo que quando especialistas de um determinado assunto nós não estudamos porque, entre aspas, não agregam. 

É só quando a gente se abre ao conhecimento casual, incógnito e inesperado, que a gente consegue se diferenciar por conectar pontas aparentemente desconectadas e virarmos os polímatas que o mundo precisa.

Para encerrar esse episódio, quero usar mais uma frase do Malcolm em que ele diz:

“O ponto da virada é justamente o momento em que pequenas mudanças entram em ebulição, fazendo com que uma tendência ou um comportamento dê uma guinada e se alastre.”

O que eu acho mais incrível dessa frase, é que ela fala sobre dois pontos chaves que já falei em episódios anteriores. Atenção ao básico e consistência. De verdade, mais do que te fazer uma pergunta, eu quero que você reflita.

Quero que você olhe ao seu redor e faça uma lista do que te deixa insatisfeito, ou estagnado. Ou até mesmo algo que você deseja muito fazer e por algum motivo (até então desconhecido), te deixe paralisado. É importante que tudo isso dependa de você. Sim, é para olhar para si. É para buscar respostas que são simples e que você sempre às deixou de lado por esse mesmo motivos, elas são simples.

Muita das vezes a gente ignora o básico, por ele ser básico. A gente desiste de um projeto, seja ele pessoal ou profissional, antes mesmo do início, porque ser consistente cansa. Ou melhor, a consistência não é muito amiga do imediatismo, e sim, o imediatismo pode te levar a diversos lugares, mas o erro é geralmente a última parada.

Então, de verdade, pergunte a si mesmo: “O que eu preciso para alcançar o meu ponto de virada? Quais pequenas mudanças eu preciso fazer na minha vida para que eu alcance os meus objetivos?”


Reflita nisso como dever de casa, e me conte. 

Se quiser que a sua resposta faça parte do próximo episódio do Podcast, compartilha comigo pelo WhatsApp 11 972262531 mandando um áudio de boa qualidade de até 1 minuto, se apresentando no começo. As melhores respostas irão estar no podcast. Qualquer ideia,  dúvida, comentário ou até mesmo reclamação é só entrar em contato pelos sites Andrea Iorio.com.br, metanoialab.com.br , ou por meu linkedin ou instagram!

Ah, se você gostou desse episódio, tira um print e me marca no instagram ou no LInkedIn! Vai ser o máximo ver o que você achou!

Um grande abraço e até a próxima quarta feira às 8h30 da manhã com um novo episódio do Metanoia Lab!

 

 

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