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Jack Ma: resolução de grandes problemas, ecossistemas e Big Data, comentados por Andrea Iorio.

"Não importa se eu fracassei, pois pelo menos passei esse conceito para os outros. Mesmo que eu não tenha sucesso, alguém outro irá ter sucesso graças a mim"

jack ma

Jack Ma é empresário chinês, que nasceu de família humilde e hoje é um dos homens mais ricos da China sendo o fundador do grupo Alibaba.

 Além de fundador do grupo Alibaba, ele também ele serve como membro do conselho de administração do Softbank, e desde 2018 abandonou o cargo executivo na Alibaba para se dedicar à filantropia. A trajetória de vida dele é exemplo de resiliência e superação: nascido em uma família humilde, ele se oferecia como guia gratuito para os turistas em Hangzhou, na China, para poder aprender o inglês, e quando ele tentou aplicar para Harvard, mais tarde, ele foi rejeitado 10 vezes – mesmo que paradoxalmente agora é ele que é convidado com frequência para palestrar lá. Ironia do destino! Também ele foi rejeitado por empregos pela rede KFC por mais de 30 vezes, e mais tarde se tornou professor de inglês, ganhando o equivalente de 12 dólares por mês. Aí ele teve alguns empreendimentos e foi pioneiro no ramo da Internet na China ao reunir 18 sócios em 1999 e fundar a Alibaba. Aí foram quase duas décadas de crescimento exponencial, abrindo várias frentes além do e-commerce, até o ponto de fazer em 2014 a maior IPO do mundo, levantando 25 bilhões de dólares. 

Também, ele é um excelente orador e adoro as palestras dele. No episódio de hoje, vamos analisar 3 frases onde ele fala sobre a filosofia de negócios do Alibaba, que visa ser um ecossistema de plataformas, sobre as diferenças entre o modelo deles e o da Amazon, que ele define um império, e sobre como usar o big data para melhorar a experiência do cliente no setor financeiro. Confira aqui então o Jack Ma falando sobre o que é um ecossistema, e porque é importante para resolver os grandes problemas do e-commerce Chinês.

“Nós não somos uma companhia tradicional. Nós definimos uma companhia operando uma plataforma, uma companhia que está operando um ecossistema. “Vocês estão em todo lugar, Jack” É o que as pessoas me dizem. Vocês estão no B2B, no B2C, no C2B, em finanças, em pagamentos, em logística, em computação na nuvem, vocês estão em todo lugar! E isso não é porque somos gananciosos, nem porque queremos estar em todos esses lugares, mas porque devemos estar ai. Porque se não estivermos em todos esses lugares, o ecossistema Chinês de e-commerce, ao longo dos próximos anos, irá colapsar. Eu me lembro ainda de 9 anos atrás, quando comecei o Alipay, e as pessoas me diziam: “Jack, não se mete no setor financeiro, porque é ilegal e você pode ser preso”. Aí pensamos que se nós não tivéssemos feito isso, o ecossistema chinês de e-commerce teria ficado sempre igual um bate-papo UOL, só negociando mas ninguém concluindo transações. Então eu disse: “que me coloquem em prisão, mas eu vou me assegurar que o sistema de pagamentos do Alipay funcione”. E de novo, aí as pessoas também disseram: “Essa solução de pagamento é uma ideia estúpida, é um sistema de escrow, onde você paga mas nós guardamos o dinheiro até que o produto seja enviado, e se não receber o que você pediu, te retornamos o dinheiro”. E o pessoal disse, é uma ideia estúpida, e eu disse: “Se ela resolver o problema, eu curto coisas estúpidas e façamos com que as coisas estúpidas se tornem inteligentes. Continue melhorando a cada dia”.

Tente explicar para mim em qual mercado a Amazon está?

Sim, vamos começar falando da Amazon e na da Alibaba. Calma, chegaremos lá. 

E-commerce? Hum, seria limitante. É muito mais do que isso. E com quem compete de fato? Walmart, ou Mercado Livre aqui na América Latina?

Não é fácil responder.

A verdade é que nos anos após o 1995, quando o Jeff Bezos lançou o site, você podia dizer que ele primeiramente estava no negócio de vendas de livros, e competia com a Barnes & Nobles e afins. Depois, ele começou a perceber que os mesmos consumidores pudessem se interessar por outras categorias, e incluiu música, DVDs, eletrônicos, brinquedos, e assim por diante, e começou a competir com Walmart de verdade, com Best Buy e com Toys R Us, que inclusive nos últimos anos, de maior empresas de lojas de brinquedos do mundo, chegou a declarar falência, muito em parte também pelas pressões competitivas da Amazon.

Mas vamos ainda pra frente.

Em 2000, a Amazon abriu o própria plataforma para terceiros, se tornando uma verdadeira plataforma, e aí começou a brigar com EBay, Craigslist e afins.  Um ano antes da Netflix, a Amazon Lançou streaming, se colocando então na competição com Netflix, Apple e hoje Disney que com Disney+ está fazendo um ótimo trabalho. 

Em 2011 inclusive, a Amazon lançou os Amazon Studios, para criar conteúdo proprietário, indo competir com os maiores estúdios de Hollywood! Inclusive, aqui o Jeff Bezos famosamente disse que “Quando ganhamos um Golden Globe, nos ajuda a vender mais sapatos”, pois ao final está tudo embaixo do Amazon Prime, o serviço por assinatura que foi uma sacada genial para a Amazon e que hoje contabiliza 150 milhões de assinantes, o que faturou 5.5 bilhões de dólares em 2019. Nada mal!

E se a gente fosse seguir, poderíamos ficar horas: com a divisão da Amazon Web Service, que oferece serviços de computação em nuvem e é hoje uma das mais importantes do grupo, ela compete com IBM, Google e Oracle, enquanto com o Kindle compete com Microsoft e poucos outros, e com o Alexa compete com Google, Apple e poucos outros também.


Que confusão, não é? Mas sabe o que?

Essa confusão nasce do fato que nos olhamos do ponto de vista errado. Do ponto de vista comum e normal dos negócio, nos definimos como empresa por nossos produtos, pelo mercado no qual eles estão, e muitas vezes pela competição. Mas sabe o que? A Amazon tem uma perspectiva muito diferente, que faz a complexidade que acabamos de descrever muito mais fácil de entender, o que não significa de gerenciar, tá? 

Ela define o escopo do próprio negócio baseado no cliente, e não em torno dos seus produtos ou competidores. Quando você o baseia no cliente, você consegue resolver as suas dores. Seus problemas.

Mas Andrea, porque falar tanto de Amazon em um episódio sobre Jack Ma? Porque mesmo diante uma enorme diferença de modelo de negócio entre Amazon e Alibaba, que iremos explorar no segundo áudio, isso tudo aplica também a Alibaba. Eles estão em inúmeros setores, e qual o fio condutor? Os grandes problemas. 

Onde tem um grande problema, eles vão lá e resolvem. Pois grande problema, significa enorme oportunidade de negócio. E aí o Jack Ma sempre está presente. 

Quando falamos de grandezas, vamos começar então pelo recorde que eles bateram em 2014, na cotação que eles fizeram na bolsa de valores, de maior IPO da história, que foi apenas superada pelo IPO da Saudi Aramco em 2019 que foi bizarra, convenhamos, levantou 25 bilhões de dólares avaliando a empresa por 1.6 trilhões. Só pra ter ideia, o PIB do Canadá é de 1.6 trilhões.  

Mas enfim…voltamos a Alibaba, ela é dona das duas maiores plataformas de e-commerce da China, Taobao e Tmall, que inclusive dão de 10 a zero em termos de experiência do usuário a respeito a Amazon ou outro player ocidental, especialmente Tmall. Também, assim como a Amazon, tem um negócio de computação em nuvem que hoje fatura em torno de 6 bilhões de Dólares por ano. Tem também uma plataforma de delivery de comida, a Ele.me que porém não é líder, tem uma plataforma logística Cainiao, tem uma plataforma de vídeo chamada Youku, um browser,  o UC Web, e um sistema de navegação super popular, o Autonavi. Mas mais famosamente, eles devem 33% da Ant Financial, conhecida inicialmente como Alipay, uma empresa de pagamentos avaliada em 150 bilhões de dólares e hoje a fintech mais valiosa do mundo.

Ou seja, eles também, seguindo a filosofia da Amazon, estão aí para resolver os grandes problemas do cliente, e não se definem apenas pelo mercado ou pela concorrência. 

O Peter Diamandis, famoso futurólogo e autor de negócios, e também cofundador da Singularity University, já disse famosamente: “se você quiser fazer um bilhão de dólares, tente resolver um problema de 1 bilhão de pessoas”.

No áudio acima, o Jack Ma fala que as pessoas dizem “vocês estão em todo lugar, no B2B, no B2C, pagamentos online, logística, cloud, etc”, e ele diz perfeitamente “não estamos aí porque queremos estar ai, mas porque devemos estar aí”…ou seja para resolver problemas.

Vou fazer um raciocínio aqui, e me diga se estou errado. 

Quando você olha para produtos ou para o mercado, e você identifica um Gap, você tem a tentação de entrar e fazer algo para isso. “Ah, ninguém fez isso ainda”, nós contamos, e achamos que aí está a receita para o sucesso. “Vamos ser, ou somos a primeira empresa fazendo isso, e seremos inovadores”…é tentador, mas está errado. Pois na grande maioria dos casos, não tem produto ou empresa ai porque não tem nenhum problema a resolver, e o cliente não precisa disso!

Dados corroboram isso: segundo dados da Endeavour, o motivo número 1 de fracasso de Startups no mundo é a falta suficiente demanda para um certo produto ou serviço!

Muitas vezes ouço empreendedores que tem planos de negócio mirabolantes, e produtos super sofisticados e lindos, e que me apresentam suas ideias sempre dizendo “ninguém fez isso ainda”, ou “somos os primeiros”. E ainda pedem para assinar uma NDA para garantir que eu não vá roubar a ideia deles! 

O destino quase certo de muitas dessas startups? o fracasso, garanto. 

Porque quando ao invés de pensar em resolver grandes problemas do cliente, nós colocamos na cabeça que precisamos fazer algo novo, nós inovamos porque podemos, não porque devemos. Quando se  tem um problema e o cliente tem uma dor, e você inova para resolvê-lo, você está inovando porque deve. É por isso que temos que começar pelo cliente, e definir nosso escopo em torno da dor dele, e não o contrário. 

Em outra frase famosa, o Jack Ma diz de forma provocativa que “Pessoas inteligentes precisam de um bobo para guiá-las. Quando o time é um bando de especialistas, é melhor ter um não-especialista guiando o caminho. A sua forma de pensar é diferente. É mais fácil vencer se você tiver pessoas que olham para as coisas de forma diferente”. 

Olha que interessante: no áudio acima o Jack Ma fala “eu gosto de coisas estúpidas. Vamos fazer elas inteligentes”.

E sabe por que? Porque quando a gente tem um ponto de vista de não especialista, nós conseguimos entender melhor o cliente! Quando somos especialistas, nos apaixonamos por nossos produtos e soluções, e não entendemos o cliente e suas dores. E quando entendemos os problemas dos clientes, fica mais fácil entender como crescer nossos negócios e onde inovar. 

Porque se pensarmos bem, mesmo sendo áreas aparentemente desconectadas as em que o Alibaba opera, temos que pensar que o mesmo cliente pode utilizar tudo isso: ele compra no e-commerce ao mesmo tempo que pede comida online, ao mesmo tempo que paga via aplicativo ou pede um empréstimo, usa o navegador do carro e assiste vídeos online e até tenha um negócio que usa computação na nuvem, ou, no caso da Amazon, o cliente Prime compra no e-commerce como assiste filmes na internet. 

Quando você conecta as pontas, você cria um ecossistema, e aqui chegamos em uma das palavras chaves que o Jack Ma usa para definir o Alibaba. Um ecossistema. E aí tem uma diferença enorme com a Amazon, que ele vai nos contar no próximo áudio.

“Uma das coisas mais fascinantes para mim , é o que a Amazon e o Jeff Bezos tem escolhido, é um modelo de heavy assets, ou seja eles compram aviões, eles são donos do supply chain, enquanto Alibaba é um negócio leve, que não detém os ativos, mas foca na parte de plataforma mesmo, ou seja você não quer ser dono dos galpões e inventários, você não quer ser dono das empresas de logística. Como você pensa sobre isso, é o Jeff Bezos que tem razão ou você tem razão, ou existe um meio termo? Eu espero que ambos estejamos corretos, e acredito que no mundo não existe apenas um modelo correto, porque se fosse assim então o mundo seria extremamente chato. Precisamos ter vários tipos de modelos, e as pessoas que criam o modelos devem viver segundo o modelo, e eu acredito muito no meu modelo. A diferença entre a Amazon e a gente, é que a Amazon é mais como um império, onde tudo precisa ser controlado por eles, assim como todas as transações. Nossa filosofia é que queremos ser um ecossistema, onde queremos empoderar outros a vender, empoderar outros a fornecer serviços, e fazer com que eles se tornam maiores que a gente, garantindo que com nossa tecnologia e nossa inovação os nossos mais de 10 milhões de vendedores parceiros possam competir com Microsoft e IBM. Nossa filosofia é que acreditamos que usando a tecnologia digital, nós fazemos com que qualquer um possa se tornar a Amazon.”

Mesmo que o negócio do Alibaba estivesse crescendo rapidamente desde 1999, a chave virou mesmo em 2007. O que aconteceu? Naquele ano, todo o time de liderança se encontrou para um offsite sobre estratégia em um hotel em NIngbo, na província de Zhejiang, na China. Nesse encontro, alguns líderes presentes relataram  que foi aí que nasceu a visão do futuro e a filosofia de negócio que fez do Alibaba um verdadeiro ecossistema, e o gigante de hoje. A frase que os líderes combinaram foi de “fomentar o desenvolvimento de ecossistema de e-commerce aberto, coordenado e próspero”. Foi aí que a verdadeira jornada do Alibaba que conhecemos hoje começou, e como pudemos ouvir do Jack Ma no áudio anterior, a de ser um ecossistema continua como prioridade. 

O que é um ecossistema, ao final, nos negócios? É uma comunidade de organismos, ou seja empresas e consumidores de vários tipos, interagindo entre si e com o meio ambiente, que é a plataforma on-line e os maiores elementos físicos off-line. O imperativo estratégico do Alibaba sempre foi de garantir que a plataforma fornecesse todos os recursos, ou acesso aos recursos, que um negócio on-line precisaria para ter sucesso.

O ecossistema começou simples no começo: uma plataforma que ligava compradores e vendedores de mercadorias. À medida que a tecnologia avançava, introduziram mais funções on-line – incluindo publicidade, marketing, logística e finanças, e mais recentemente, como marketing de afiliados, recomendadores de produtos e influenciadores de mídia social. Foi assim que eles ajudaram a criar novos formatos de negócios on-line, reinventando completamente o setor de varejo da China ao longo do caminho. 

Alibaba hoje não é apenas uma empresa de comércio eletrônico, como falamos anteriormente, mas faz o que a Amazon, o eBay, o PayPal, o Google, a FedEx, os atacadistas e uma boa parte dos fabricantes fazem nos Estados Unidos, com uma forte ajuda de serviços financeiros para corroborar. Das dez empresas mais valorizadas do mundo atualmente, sete são empresas de internet com modelos de negócios semelhantes ao do Alibaba, e cinco deles – Amazon, Google e Facebook nos Estados Unidos e Alibaba e Tencent na China – existem há apenas 20 anos. Por que tanto valor e poder de mercado surgiram tão rapidamente? 

Por dois motivos principais: pelos efeitos de rede gerados por modelos de plataformas, e pela inteligência que nasce do uso de Big Data. 

Vamos focar agora na primeira parte, dos efeitos de rede, e no audio seguinte iremos falar da parte de Big Data. Esse novo modelo de negócio foi até denominado de Smart Business, e muitos acreditam que será a lógica de negócios predominante no futuro. 

O que são Smart Businesses? 

São negócios que surgem quando todos os participantes envolvidos na conquista de um objetivo comercial comum, que de novo, nasce de modelos de plataformas, como no varejo, mas não só, por exemplo na área de viagens ou até o Tinder! –  são coordenados digitalmente e usam a tecnologia Machine Learning para alavancar dados em tempo real com eficiência, o que faz com que as empresas se adaptam dinamicamente às mudanças nas condições de mercado e preferências dos clientes. 

Sabemos que ambos, Amazon e Alibaba fazem isso muito bem, mas ao mesmo tempo existe uma grande diferença filosófica entre as duas empresas, que como o Jack Ma define no áudio anterior, é uma entre “um império, a Amazon, e um ecossistema, Alibaba”. 

Óbvio que ele quer aparecer como o policial bom, enquanto deixa a parte do policial ruim para o Jeff Bezos. Vamos começar então analisando as diferenças estruturais, e depois comentar um pouco sobre os modelos de negócios de plataformas, e suas vantagens. 

Enquanto a Amazon controla seus inventários e é focada na parte de Fulfillment e delivery, O Alibaba opera com um modelo de ativos leves (ou seja, não tem inventário e só recentemente começou a focar no fulfillment e na logística) e apenas facilita as transações. Eles gerenciam o mercado e cobram uma pequena taxa, mas não mantêm – nem vendem – mercadorias em si. 

Isso lhes permite operar como um mercado livre de taxas, onde nem vendedores nem compradores precisam pagar uma taxa pelas transações. Em vez disso, os quase 7 milhões de vendedores ativos no Taobao, o marketplace deles, pagam para ter uma classificação mais alta no mecanismo de pesquisa interno do site, gerando receita de publicidade para o Alibaba que imita o principal modelo de negócios do Google. Somente após o Taobao atingir a escala, o Alibaba começou a mudar seu foco para atendimento e logística. Enquanto o Taobao atrai mais os pequenos comerciantes, o Alibaba também possui um segmento dedicado para grandes varejistas. Tmall é o site de e-commerce que atende a marcas conhecidas, incluindo Zara, Nike e Hugo Boss. Apesar de sua menor rede de vendedores ativos, a Tmall é capaz de gerar receita com depósitos, taxas anuais de usuários e comissões de vendas cobradas dos varejistas que utilizam o site.

A economia de consumo da China só começou no início dos anos 2000, quando o país se abriu a economia de mercado, e também foi nesse período em que o Alibaba surgiu. Como a economia ainda estava em seu estágio primitivo, não havia muitos varejistas estabelecidos, as redes de distribuição eram ineficientes e a renda familiar era baixa comparada com os padrões globais. Além disso, a concorrência era baixa, o que significava que era mais fácil para o Alibaba criar um novo ecossistema de varejistas de comércio eletrônico, fornecendo a eles uma plataforma para oferecer mercadorias. Hoje, estamos começando a ver os efeitos do modelo de negócios dominante e superior do Alibaba. Seus segmentos de comércio eletrônico têm uma margem operacional muito maior, uma infraestrutura de suporte muito mais leve e consomem menos capital do que a Amazon. 

Além disso, com esse modelo, o Alibaba pode listar mais produtos que a Amazon, oferecendo aos consumidores uma variedade maior de opções. A expansão para novos mercados é relativamente rápida e fácil, sem a necessidade de construir infraestrutura, assim gerando retornos excedentes e maior ROIC. A partir dessa análise, inclusive, mesmo eu sendo um grande fã do jeff Bezos, sou mais confiante ainda no modelo de negócio do Alibaba. Que de novo, por ser um ecossistema de negócios de plataformas, se beneficia enormemente de externalidades.

O que são efeitos de redes e externalidades e porque elas são fundamentais? Aqui vem a parte meio intelectual do meu passado como estudante de economia, segura ai rs. 

Bom, primeiramente sobre efeitos de rede, em inglês network effects, ou também o chamado de “efeito bola de neve”, é o fenômeno que faz com que quando tem mais pessoas ou negócios em uma rede social por plataforma, mais gente será atraída pois ela vale mais, pode gerar mais resultados. Assim funciona o Tinder e as redes sociais, de forma geral. Pense bem: se você fosse abrir o Tinder em uma cidade pequena, onde tem poucos usuários, logo menos você ficaria frustrado e irá sair. Mas em cidade grande, o leque é tão grande que você fica retido a plataforma, e você gera valor por estar nela também, e faz com que mais pessoas sejam retidas. O conceito na teoria da Economia que explica esse fenômeno é a externalidade: benefício , uma externalidade positiva, ou desvantagem, externalidade negativa, recebida por um agente econômico por causa da atividade de outro agente econômico, sem que tenha nenhuma relação econômica entre eles.

De fato, os network effects são uma externalidade positiva, pois, mesmo que um usuário e um vendedor no Alibaba não se engajem em uma transação, eles geram valor pra plataforma pois é mais atrativa. Assim como mais um usuário no e-commerce deles, seja Taobao, ou Tmall, gera uma externalidade positiva para o Ant Financials, a fintech deles, como iremos ver no próximo trecho, e vice-versa. 

Isso é para se levar sempre em consideração em nossos negócios, ainda mais quando temos negócios de plataformas digitais, mas também quando estamos considerando um. 

Olha como o Jack Ma desde sempre levou isso em consideração. Ele costuma contar uma história no lançamento do Alibaba quando ele pediu aos outros 9 sócios cada um pegar 4 itens da casa deles e colocar a venda na plataforma recém lançada, mas eles tiveram até dificuldades em achar esses itens porque eles eram pobres demais! Mas mesmo ter alguns produtos em exposição faz a diferença!

Porém não acaba aqui. 

Mas para funcionar, qualquer negócio de plataforma precisa de uma métrica que estabeleça confiança. Você está juntando pessoas e negócios pela primeira vez, e é responsabilidade da plataforma garantir essas recompensas por bons comportamentos e penalizações por mau comportamento. 

Enquanto o tinder tinha o segredíssimo Elo score, que foi inspirado em World of Warcraft, que o Jonathan Badeen, cofundador do Tinder, era super apaixonado, o Alibaba revolucionou o e-commerce, e de certa forma até a sociedade, na China. Ouça só o Jack Ma falando sobre isso no próximo áudio.

Como podemos usar nosso sistema de ratings, então, baseado nos dados que temos a disposição para dar a todo mundo uma nota e conceder empréstimos? Isso tem sido muito poderoso nos últimos 4 anos. Cada pessoa, cada pequeno negócio ou empresário que tenha utilizado nossos serviços, entra em nosso sistema de pontuação, o Sesame. Nos últimos 5 anos temos dado 5 milhões de empréstimos para pequenas empresas, em média pegando emprestado apenas 5.000 dólares, em apenas 3 minutos: nesse tempo decidimos se devemos te emprestar dinheiro, e quanto te devemos dar, e em até 1 segundo, o dinheiro estará na sua conta, e zero pessoas tocam nesse dinheiro. Por isso o chamamos de 3-1-0. Hoje o sistema de rating Sesame se tornou tão popular que é utilizado nos relacionamentos: a sogra diz “Hey, quer namorar a minha filha? Então me mostre sua nota no Sesame”

Imagine por um momento um mundo onde a cada interação que você tiver, você dá e recebe uma nota. De 0 a 5 estrelas, tipo nota de Uber. Você é bem atendida, dá 5 estrelas e se agradecer de volta, recebe 5 estrelas. As suas fotos nas redes sociais são avaliadas de 0 a 5. Você está no elevador, e se a sua conversa for legal, recebe 5 estrelas. Enfim, você me entendeu, em tudo tudo mesmo. 

A primeira pergunta é: você agiria normal, sob esse escrutínio massivo, ou iria modificar o seu comportamento para acomodar uma nota mais alta? 

Mas tem mais, você mora em um apartamento com o seu irmão, e quer se mudar. Ai vai ver umas casas e se apaixona por uma, que porém é bastante cara – mas você pode conseguir um financiamento! Com um porém: apenas se a sua nota média for acima de 4.85. Assim como o acesso a qualquer serviço, ou o preço de qualquer produto, isso pode variar dependendo da sua nota média. Ai você vai numa consultoria especializada que pode te ajudar a subir a sua nota, ela faz uma analise e ela te indica quais comportamentos ter e grupos de pessoas a se relacionar. Você sai satisfeita, pronta a fazer tudo certinho, e animada porque inclusive aquele final de semana tem o casamento da sua melhor amiga, e você é a madrinha! Que emoção! Você sobe bastante o seu rating, e chega o dia antes do casamento: empolgada vai para o aeroporto mas o voo está cancelado. Depois de tentar ser super gentil com a atendente mal educada que não quis te ajudar em nada nessa situação, você deixa escapar um palavrão. Já era: você recebe nota baixa, e também perde o avião. Ai com rating mais baixo consegue alugar um carro pior, que no meio do caminho tem um problema técnico, e a cada interação, a cada vez mais frustrada, você abaixa o seu rating, ao ponto de não receber carona por ninguém porque estão com medo de você com nota tão baixa. Um caminhão dirigida por uma pessoa que também ligou o foda-se e tem nota baixíssima e por isso não está assustada por você, consegue te ajudar a chegar ao casamento da sua amiga, mas sabe o que? A sua amiga não te quer mais no casamento dela, ainda menos como madrinha! Como pode ela ter uma pessoa com nota tão baixa no casamento! Bom, enfurecida e ligando o foda-se também, você invade o casamento da sua amiga e além de passar vexame porém ao falar verdades nuas e cruas para o público, mas ah que sensação libertadora, você também é pressa. 

Louco né? 

Muitos devem ter reconhecido aqui o roteiro do episódio “Queda Livre”doe Black Mirror, o primeiro episódio da terceira temporada. Pois é, queria eu ter o dom de roteirizar histórias tão legais! Peguei emprestada, se não roubei. 

Mas a pergunta aqui que eu quero fazer, é: esse mundo fictício de Black Mirror, é muito diferente do mundo que vivemos hoje? 

Parece distante, mas será que nossos likes, ou taxas de engajamento nas redes sociais não são semelhantes a essa nota? Ou também, todos temos uma nota no Uber: por enquanto é privada, mas se ficassem públicas, o quanto elas diriam sobre a gente?

Se você ainda não está convencido que o mundo do Black Mirror é bem semelhante ao mundo atual, preste atenção na frase do Jack Ma onde ele diz que até as sogras na China agora estão perguntando o rating Sesame do genro para aprovar o casamento deles ou não. 

Eu entendi a brincadeira que ele fez, mas achei ela um pouco perturbadora. 

Mas enfim, o que podemos dizer é que o big data permite isso tudo, combinado com a Inteligência Artificial: amplo poder computacional e big data são o combustível para um bom Machine Learning. Quanto mais dados e mais iterações passarem pelo algoritmo, melhor será seu resultado. Os cientistas de dados criam modelos de previsão probabilística para ações específicas e, em seguida, o algoritmo agita cargas de dados para produzir melhores decisões em tempo real a cada iteração. Esses modelos preditivos se tornam a base para a maioria das decisões de negócios, assim como entender se você é confiável o suficiente para receber um empréstimo pela Ant Financials. Assim, o aprendizado de máquina é mais do que uma inovação tecnológica; transformará a maneira como os negócios são conduzidos, à medida que a tomada de decisão humana é cada vez mais substituída pelo algoritmo.

Mas como você cria esse tipo de negócio, no molde da Ant Financial? Segundo o Ming Zeng, que é membro do Conselho do Alibaba, e que listou os fatores de sucesso em um artigo da Harvard Business Review do titulo “Alibaba and the Future of Business”, ele diz que a chave disso tudo está em 4 passos principais, que estão atrás a criação do que ele chama “negócios inteligentes”, ou Smart Businesses. 

1 – Metrifique e transforme em dado toda interação entre seus clientes.

 A maioria das empresas que buscam ser mais orientadas a dados geralmente coleta e analisa informações para criar um modelo causal. O modelo então isola os pontos críticos de dados, da massa de informações disponíveis. Não é assim que as empresas inteligentes usam dados. Em vez disso, eles capturam todas as informações geradas durante trocas e comunicações com clientes e outros membros da rede enquanto a empresa opera e, em seguida, permitem que os algoritmos descubram quais dados são relevantes.

2 – “Softwarize” cada atividade

Em um negócio inteligente, todas as atividades – não apenas o gerenciamento do conhecimento e as relações com os clientes – são configuradas usando um software para que as decisões possam ser automatizadas. A lógica dominante aqui é a reatividade no tempo real. O primeiro passo é criar um modelo de como os seres humanos atualmente tomam decisões e encontrar maneiras de replicar os elementos mais simples desse processo usando o software. 

3 – Faça os dados fluirem 

Em ecossistemas com muitos atores interconectados, as decisões de negócios exigem coordenação complexa. Os mecanismos de recomendação de Taobao, no exemplo do Alibaba, precisam trabalhar com os sistemas de gerenciamento de estoque dos vendedores e com os sistemas de perfis de consumidores de várias plataformas de mídia social. Seus sistemas de transações precisam trabalhar com ofertas de desconto e programas de fidelidade, além de alimentar nossa rede de logística. Os padrões de comunicação, como TCP / IP e interfaces de programação de aplicativos (APIs), são essenciais para que os dados fluam entre vários players, garantindo um controle rigoroso de quem pode acessar e editar dados em todo o ecossistema. Hoje, os comerciantes do Taobao assinam mais de 100 módulos de software, em média, e os serviços de dados ao vivo que eles permitem reduzir drasticamente o custo dos comerciantes em fazer negócios. Mas a direção é muito clara: quanto mais dados fluem pela rede, mais inteligente será os negócios se tornam e quanto mais valor o ecossistema cria.

4 – Aplique os algoritmos 

Uma vez que uma empresa tenha todas as suas operações on-line, ela terá uma avalanche de dados. Para assimilar, interpretar e usar os dados em seu proveito, a empresa deve criar modelos e algoritmos que explicitam a lógica subjacente do produto ou a dinâmica do mercado que a empresa está tentando otimizar. Este é um enorme empreendimento criativo que requer muitas habilidades novas, daí a enorme demanda por cientistas e economistas de dados. O desafio deles é especificar qual trabalho eles querem que a máquina faça e eles precisam ser muito claros sobre o que constitui um trabalho bem feito em um ambiente de negócios específico. Hoje no Taobao, quando os clientes fazem login, eles veem uma página da Web personalizada com uma seleção de produtos com curadoria dos bilhões oferecidos por nossos milhões de vendedores. A seleção é gerada automaticamente pelo poderoso mecanismo de recomendação do Taobao. Os chatbots também podem dar uma contribuição significativa para a linha superior de um vendedor. A marca de roupas Senma, por exemplo, começou a usar uma há um ano e descobriu que as vendas do bot eram 26 vezes maiores do que o principal associado de vendas humanas do comerciante. Sempre haverá a necessidade de representantes humanos de clientes lidarem com problemas pessoais ou complicados, mas a capacidade de lidar com consultas de rotina por meio de um chatbot é muito útil, especialmente em dias de grande volume ou promoções especiais. 

Esses pontos foram aplicados super bem na Ant Financial, e na divisão de empréstimos, a Ant Microloans, que justamente é a que o Jack Ma menciona no áudio acima. 

Quando o Alibaba lançou o Ant, em 2012, o empréstimo típico concedido por grandes bancos na China era de milhões de dólares. O montante mínimo do empréstimo – cerca de 6 milhões de RMB ou pouco menos de US $ 1 milhão – estava bem acima dos valores necessários para a maioria das pequenas e médias empresas (PMEs). Os bancos relutavam em atender empresas que careciam de qualquer tipo de histórico de crédito ou mesmo documentação adequada de suas atividades comerciais. Como consequência, dezenas de milhões de empresas na China estavam tendo dificuldades reais para garantir o dinheiro necessário para aumentar suas operações.  A Alibaba percebeu que isso era um enorme gargalo para o próprio negócio, e que tinha o ingrediente para criar um negócio de empréstimos para PMEs de alto funcionamento, escalável e lucrativo: a enorme quantidade de dados de transações gerados pelas muitas pequenas empresas que usavam suas plataformas. Hoje, o Ant pode facilmente processar empréstimos tão pequenos quanto várias centenas de RMB (cerca de US $ 50) em alguns minutos, mais precisamente em 3, como disse o Jack. Como isso é possível? Ao final, para conceder um empréstimo, você precisa responder a 3 perguntas: 1 devemos emprestar a eles sim ou não, 2 se sim quanto devemos emprestar, e 3 a que taxa de juros? Com os dados na mão, isso é mole para Alibaba. 

Todas as transações, todas as comunicações entre vendedor e comprador, todas as conexões com outros serviços disponíveis no Alibaba, e todas as ações tomadas nas plataformas da Alibaba são medidas e afetam a pontuação de crédito de uma empresa. Ou seja, xó privacidade né? Ao mesmo tempo, os algoritmos que calculam as pontuações evoluem em tempo real, melhorando a qualidade da tomada de decisão a cada iteração.

E sabe o que? Com essa sofisticação toda em termos de dados e Inteligência Artificial, a China é líder nesse campo, superando os Estados Unidos.

Essa é a tese do livro “AI Superpowers” do Kai Fu Lee, uma das autoridades chinesas e globais em tema de inteligência artificial. Ele diz que se a Inteligência Artificial é o novo petróleo, então a China é a nova Arábia Saudita. No livro, fundamentalmente ele diz que se obtém uma posição dominante na area de AI tendo acesso a 4 fatores, e a China ganha dos Estados Unidos: 

1 – é número de engenheiros de software a disposição trabalhando em aprimorar a Inteligência Artificial. A China tem mais que Estados Unidos, então 1 a 0. 

2 – acesso a dados, e isso é inversamente proporcional a força das leis de proteção de dados. Na China elas são bem mais relaxadas que Europa e Estados unidos, entao China 2 a 0. 

3 – uma cultura agressiva de empreendedorismo, com menor burocracia para start-ups. China? Óbvio, é 3 a 0. 

4 – investimentos públicos em pesquisa na área, e a China está investindo muito mais. Opa, deu 4-0. 

Eu pessoalmente fiquei super impressionado um tempo atrás, analisando uma apresentação que o pessoal do Sense Time, startup chinesa de Inteligência Artificial que tem APIs de reconhecimento facial e que estamos considerando para usar no Filmr, que eles tem mais de 800 PhDs trabalhando por eles. Bizarro! 

E a gente vê os resultados, se compararmos o que Alibaba conseguiu no setor financeiro com Ant, é bem mais do que o Amazon conseguiu com Amazon Lending…digamos que também eles nao jogam com as mesmas regras, este 4-0 é favorecido por regras muito mais flexíveis na China…se podemos chamar elas de regras!

Para encerrar esse episódio, separei mais uma frase do Jack Ma  em que ele diz:

“Eu disse para o meu filho: você não precisa estar entre os 3 melhores alunos da sua sala. Ficar na média está bom, desde que as suas notas não estejam muito ruins. Apenas essa pessoa tem o tempo livre suficiente para desenvolver outras habilidades”.

Eu sei. Bem controversa essa frase. Mas não  olhe pela perspectiva convencional, onde todos somos ensinados que devemos sempre ser os melhores na escola e no trabalho. O grande problema disso é que tem um custo. O custo de oportunidade de abrir mão de desenvolver outras habilidades que possam ser importantes em outros contextos. 

O Jack Ma sempre foi um estudante na média. Ele não foi admitido em Harvard, e também não passou no processo de seleção para trabalhar no KFC. Mas ele sempre buscou desenvolver novas habilidades e competências, que ao final foram as bases da criação do Alibaba. Então uma coisa é certa: a formação é a base, não é o teto. Você precisa continuar a desenvolver várias habilidades, inclusive às vezes aparentemente desconectadas – como o Steve Jobs nos ensinou no segundo episódio do Metanoia Lab – mas que podem servir para se preparar para nosso futuro. 


A pergunta aqui que eu quero que você reflita é: você sempre trilhou o caminho convencional, tocando cada meta que a sociedade nos impõe mas ao mesmo tempo desenvolvendo rotinas e hábitos que nos prendem, ou em algum momento teve a coragem de sair do caminho pré estabelecido, e se surpreendeu a aproveitar esses ensinamentos tempo depois? E se não, está disposto a não ser o primeiro da classe, mas a ser o primeiro da sua vida?

Reflita nisso como dever de casa, e me conte. 

Se quiser que a sua resposta faça parte do próximo episódio do Podcast, compartilha comigo pelo WhatsApp (11) 972262531 mandando um áudio de boa qualidade de até 1 minuto, se apresentando no começo. As melhores respostas irão estar no podcast. Qualquer ideia,  dúvida, comentário ou até mesmo reclamação é só entrar em contato pelos sites Andrea Iorio.com.br, metanoialab.com.br , ou por meu linkedin ou instagram!

Ah, se você gostou desse episódio, tira um print e me marca no instagram ou no LInkedIn! Vai ser o máximo ver o que você achou!

Um grande abraço e até a próxima quarta feira às 8h30 da manhã com um novo episódio do Metanoia Lab!

 

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