PODCAST

Melinda Gates: resolução de problemas complexos, conexões humanas e crises humanitárias, comentados por Andrea Iorio (participação do Pedro Aihara).

"Conecte-se profundamente com os outros. Nossa humanidade é a única coisa que todos temos em comum."

MELINDA GATES

Melinda Ann French Gates é uma cientista da computação, ex-funcionária da Microsoft, e co-fundadora e co-presidente da Fundação Bill e Melinda Gates. Em 2005 foi considerada a 10ª mulher mais poderosa do mundo segundo a revista Forbes.

Ah, e hoje temos um Convidado especial! O Pedro Aihara, Porta-voz do Corpo de Bombeiros – MG,  responsável pelas atualizações sobre o rompimento da barragem de Brumadinho. Eu tive o prazer de conhecer ele pessoalmente, somos ambos palestrantes agenciados da DMT Palestras e adoro a palestra dele “A Calma no Caos”. Ele fala com muita propriedade sobre resolução de problemas complexos, conexões humans e crises humanitárias, que são justamente alguns dos temas que a Melinda aborda!

Voltando a falar da Melinda, ela conheceu Bill Gates em 1987 em um evento cerimonial da Microsoft em Nova Iorque e se casou com ele em Janeiro de 1994 na ilha de Lanai, no Hawaí.  Em Dezembro de 2005, ela e seu marido foram nomeados Pessoa do Ano pela revista Time. Em 2015 Melinda ficou no  3° lugar entre as mulheres mais poderosas da Forbes. 

Melinda é, de fato, poderosa, mas não apenas pelas dezenas de milhões em sua conta, e sim pela forma na qual ela se entende como poderosa, e o significado do poder para ela. Olha, eu não sei exatamente qual palavra ela usaria para descrever o poder, mas eu chutaria que para ela, ter poder é conseguir conectar pessoas. Acho que depois dessa primeira frase dela você irá entender o que eu estou falando! Escuta só! 

 

“Eu e Bill amamos quebra-cabeças. E essa é uma boa metáfora para mim sobre como trabalhamos juntos e como penso sobre os problemas, que são um quebra-cabeça. Você sempre sabe que existe uma solução final: a pessoa que criou um desses quebra-cabeças tem um objetivo final em mente e você chegará lá. Mas ao longo do caminho, você experimentará muita frustração. Você precisará examinar as coisas de diferentes pontos de vista, às vezes o Bill está trabalhando as formas. E eu estou trabalhando em cores. Às vezes trocamos. Às vezes, notamos algo que a outra pessoa não percebe. Às vezes você terá uma perspectiva diferente. Às vezes, você se afasta um pouco para ter uma perspectiva diferente e volta alguns minutos depois. Mas você precisa confiar em si mesmo quando estiver fazendo um quebra-cabeça para chegar lá e mergulhar na frustração. E para mim, isso faz parte da diversão.”

Sabia que existe um campeonato do mundo de puzzles? Eu, pelo menos, não fazia ideia até fazer umas pesquisas para esse episódio.  Descobri também que desde 2000, o maior ganhador é um alemão, o Ulrich Voigt, que ganhou 11 títulos desde então. 

Entender a cabeça de um crânio do tipo vai ser difícil, mas eu não deixei de tentar e fui pesquisar mais sobre ele. Aí descobri que ele começou a jogar xadrez aos 5 anos, e tem uma pontuação altíssima no ranking de xadrez também. 

De alguma forma, fazer puzzle e jogar xadrez é semelhante, mesmo que em um você compita consigo mesmo e no outro tem adversário: você tem que encaixar várias micro peças, ou fazer micromovimentos, com olho no resultado final mas sem ter a certeza que tudo que você está fazendo está te levando para lá. E se você encaixar a peça errada? Tem que voltar tudo de novo. E se você fizer o movimento errado? O adversário pode rapidamente te colocar em xeque mate. 

Eu fazia puzzles quando criança também, não tantos iguais Melinda e Bill, mas lembro que tinha algo que eu fazia bem acima da média dos meus coetâneos, pelo menos considerado as inúmeras horas que eu passava brincando disso: jogar Lego. 

Passava hora intermináveis brincando de Lego, algumas vezes seguindo o desenho final, e outras mesmo indo com o fluxo e vendo onde eu ia chegar. E não só criança tá, mas pelo menos até minha adolescência. 

Confesso que estou há anos desintoxicado de Lego, e em preparação a esse episódio, fui caçando uns vídeos na Internet sobre como a LEGO estimula o aprendizado e te ajuda na resolução de problemas. Ai me deparei com uma palestra do Esben Stærk, Presidente  da divisão LEGO Education, que falou 2 meses atrás sobre o papel da LEGO Education nos últimos 40 anos e sobre a importância do aprendizado lúdico ainda mais para a preparação de um mundo de inteligência artificial. E descobri como o Lego, empresa dinamarquesa de 1932 mas extremamente inovadora desde sempre, tem toda uma área na empresa chamada de LEGO Education onde são exploradas e fornecidas várias metodologias de ensino, principalmente em sala de aula, mas também em corporações, voltada ao treinamento através os quebra-cabeças do LEGO. Achei sensacional!

No mundo corporativo, existe a certificação LEGO SERIOUS PLAY…fiquei curioso de saber se você já teve a chance de conhecer, ou conhece algum facilitador? Se sim, me conte mais.

E como os Puzzles ajudam a treinar o cérebro da Melinda? Pois bem, eles tem benefícios comprovados, várias pesquisas comprovam os efeitos benéficos. Um estudo de 2014 descobriu que a exposição a jogos como quebra-cabeças resulta em habilidades espaciais aprimoradas. Outro estudo liderado pela Universidade de Yale descobriu que o engajamento conjunto na solução de quebra-cabeças resulta em melhor colaboração e cooperação….bem, no caso de Bill e Melinda chegou até o casamento! Não sabia? Bom, esqueci de falar…no livro Moment of Lift, ela conta como em um dos primeiros encontros que eles tiveram quando ela ainda era funcionária da Microsoft e ele meio que paquerava ela escondido, a Melinda chamou ele pra fazer um puzzle juntos. Eu sei que não é a coisa mais romântica de todas, mas com certeza derreteu o coração do metódico Bill que, para quem lembra do episódio 5 do Metanoia Lab, na hora de se decidir se casar a Melinda ou não, ele chegou a fazer uma análise de prós e contras do casamento na vida profissional dele num quadro branco do quarto dele. Pois bem, você já entendeu o quão romântico o Bill Gates pode ser kkk. 

Aí nesse primeiro encontro, a Melinda já tava pensando em começar com o quebra-cabeça como quebra gelo, e logo menos já começar a tomar um vinho, e depois sei lá o que….mas o que aconteceu na realidade foi que o Bill ficou tão concentrado em resolver o puzzle, que nada rolou mas eles conseguiram acabar em poucas horas o que deveria ter levado dia. 

Nem precisava dessa prova pra ela, mas opa, que cérebro esse tal de Bill,. hein, ela pensou.Desde então, Bill e Melinda são viciados em quebra-cabeças: eles até chegaram a dizer em entrevistas que o principal item que eles sempre levam durante as férias com eles, é…um quebra-cabeça, antes que mais nada!

Voltando aos benefícios, outros estudos mostraram que o envolvimento em quebra-cabeças pode promover a retenção de memória e reduzir a probabilidade de desenvolver demência e doença de Alzheimer. Todas as evidências apontam para o fato de que os quebra-cabeças dão ao cérebro meio que um treino de academia dá para nossos corpos. É preciso treinar nosso cérebro!

Escolhi essa frase do Puzzle da Melinda pq é assim que a gente precisa pensar hoje em dia: peça por peça, mas nunca esquecendo da visão final que queremos obter, pois sem ela nós não conseguimos escolher as peças que precisamos. E isso nos leva a importância das micro ações e macroobjetivos, que o Jim Collins e Laszlo Bock já nos falaram em outros episódios do Metanoia Lab: ainda mais em um momento de crise, nós precisamos ter a confiança de que passo a passo, peça por peça, conseguimos construir a visão do futuro.

Que conseguiremos, trabalhando com nossa dupla, ou nossos times, nos revezam frequentemente de perspectiva e buscando peças segundo características diferentes, nunca deixando de ter pensamento crítico. E tendo a força de resistir a frustração que é normal ter ao longo do processo…e vou dizer mais, de fazer dessa frustração a sua diversão.

“Fala Andrea, tudo bem? Que prazer enorme estar participando do Metanoia, especialmente da Melinda, que é sensacional porque ele falou sobre algo que eu chamo de ressignificação. No meio de uma crise e sentimentos que vão tomar conta da gente geralmente são relacionados ao meio da tristeza e ansiedade, mas quando a gente consegue perceber que para além desses aspectos negativos existem também oportunidades singulares de crescimento pessoal, de crescimento profissional, de espaços de reflexão que vão construindo um legado, um aprendizado que vai muito além dessa crise, eu consigo ressignificar, eu consigo enxergar essa balança aí mais positiva do que negativamente. E isso me ajuda a trazer calma nesse momento de dificuldade. E quando eu faço essa reflexão, e quando eu consigo enxergar dessa maneira, eu consigo ter contato com o meu propósito, refletir sobre isso. Porque que eu faço aquilo que eu pratico as minhas ações.  Eu consigo investir em autoconhecimento, eu consigo perceber quais são as minhas potencialidades e as minhas dificuldades. E é nesse processo que eu me conheço mais, que eu me entendo melhor as minhas respostas. Eu consigo ter mais calma e consigo lidar melhor com aquela situação ali que pode parecer tão difícil mas quando eu encaro com as minhas potencialidades, eu percebo que ela é perfeitamente possível de ser solucionado ou de ser minimizado.”

E vou dizer que além desses ensinamentos, eu acrescentaria alguns que aprendi nos quebra cabeças que fiz, e que eu sempre uso para abordar a resolução de problemas complexos:

1 – jogue todas as peças na mesa antes de face para cima antes: ou seja, antes de começar você precisa ter uma visão completa de todos os componentes e variáveis desse problema

2 –  crie a borda antes de atacar as partes internas: ou seja, defina primeiro o framework e defina os limites do problema. 

3 – sempre fique de olho na imagem final na capa do quebra cabeça: ou seja, sempre lembre do seu objetivo final, ou da sua visão de longo prazo, mesmo enquanto você está focado nas micro ações.

4 –  desenvolva um plano de ataque de bloco em bloco: ou seja, você precisa planejar os próximos passos na resolução do problema, e não apenas ir aleatoriamente pegando peças e ver se encaixam. Mas por exemplo, começar por um bloco mais difícil que se resolvido, torna o resto mais fácil de se encaixar.

5 – não force as peças: se as peças não encaixam, simplesmente troque e não seja teimoso em fazer elas encaixar apenas porque você acredita isso. 

6 – aprecie os detalhes, ou seja observe a evolução e aprecie o processo, fazendo da frustração uma sensação positiva e seu motor. 

7 – reconheça quando tem que fazer uma pausa: resolver um quebra cabeça de frequente é em uma sessão só, você precisa de pausas que inclusive as vezes te ajudam a ver o problema de uma perspectiva diferente. 

8 – comemore as pequenas conquistas: resolver um problema pode ser longo e cansativo, por isso se recompense quando você alcança pequenos objetivos. Se você apenas esperar para se recompensar quando chegar ao fim, bom, posso te dizer que o risco é de nem chegar lá de tão atrativo é desistir.

Um lado importante da frase da Melina é que a grande capacidade de resolver quebra cabeças complexos na realidade, que tirando a metáfora lúdica são os desafios de erradicar doenças do planeta através da Gates Foundation  vem principalmente da colaboração com o Bill, e para que isso seja profundo e verdadeiro, precisamos de conexão verdadeira com nossa dupla de LEGO, nosso time, ou qualquer um. É disso que a Melinda vai nos falar no próximo audio.

“Então, antes de tudo, você está certa.  Eu acredito em conexão. Acredito que, através da conexão entre os seres humanos, você cria empatia. E é através dessa conexão que começamos a entender as coisas. De modo que aprendemos e crescemos com esses aprendizados. E então, quando você ouvir sobre um problema global e pensar: “Ah, que  problema enorme, mas ele está longe.”  Ao ver os grandes números desse problema, você deve se lembrar que todos nós temos nossos corações, nossos intelectos, nossa energia, nosso tempo e nossos recursos. Sim. E você pode aplicá-las em qualquer quantia que desejar. Quantidades minúsculas. Grandes quantidades. Mas o que digo às pessoas é apenas se conectar, entender quais são os problemas. Leia sobre eles. Conecte-se com alguém que esteja trabalhando neles. Decida ser voluntário, mesmo em sua própria comunidade. Se o problema for educação, você verá a diferença que a educação faz em sua própria comunidade para uma criança. E se  isso está funcionando na sua comunidade, quando você começa a fazer esse tipo de trabalho e coloca um monte de coisas para se conectar com as pessoas, e entender a vida de outras pessoas, começa a ver como você tem talentos pessoais com os quais pode contribuir.”

Estou gravando esse episódio no fim de Maio 2020, e deve ser publicado em 4 semanas.

Então não sei se devo usar o presente ou o passado, pois não sei ainda até quando vai essa quarentena.

Mas te pergunto: qual foi a coisa que mais te faz falta, ou fez falta, durante a quarentena?

Se tivesse que escolher uma coisa, qual diria que é, ou foi?

Bom, para mim foi o contato humano. Não o contato físico, mas em sensu lato, a conexão.

Essa conexão que vem de apreciar os momentos com os amigos, de conhecer novas pessoas, de se confrontar e justamente de colocar para o serviço dos outros os próprios superpoderes e ver como isso contribui para sua comunidade, para a sociedade, e para o mundo. 

Óbvio, o digital nos permitiu contato humano de certa forma. 

Posso dizer que conheci muitas novas pessoas durante essa quarentena, seja por compromissos de trabalho, seja pelas redes sociais, e seja através desse Podcast.

Mas admitamos, se gera um outro tipo de conexão. 

Não é a mesma coisa pelo Zoom, convenhamos. 

E é mais cansativo e menos divertido do que na vida real. Mais cansativo inclusive porque o fluxo de informação através do Digital é maior do que nunca, e isso sobrecarrega nossos cérebros. O Pedro Aihara diz que a maior parte das pessoas não está preparada para lidar com isso, e nos conta aqui mais sobre:

“Nesse mundo Hiper conectado a gente nunca pode esquecer que nós sempre estamos falando com pessoas. Isso pode parecer óbvio, mas hoje em dia a gente tem uma espécie de dados, de informação. Tem o nosso contato principalmente por meio de plataformas digitais. Às vezes a gente esquece do óbvio, porque é uma pessoa quando ela recebe uma comunicação, quando ela participa desse fluxo, ela não quer só receber um dado, uma informação, ela quer se sentir também acolhida se cuidar e sentir respeitado sentir que ela está recebendo toda atenção pela outra parte e as vezes a gente desconsidera esse tipo de cuidado no nosso dia a dia. Quando a gente consegue se colocar se projetar no lugar do outro e entender qualquer necessidade dele, naquele momento, por exemplo, dificuldade momento quem está experimentando pandemia. As pessoas elas querem receber uma comunicação que leve em conta as dificuldades que ela tem, uma comunicação em que ela consiga sentir aquele cantinho no coração e às vezes não coloca isso na forma como a gente fala, na forma como a gente se expressa. Então voltar para aquela velha máxima que as nossas mães nos ensinaram, que a gente deve falar com o outro da maneira como a gente gostaria de receber aquela informação. Isso é uma dica simples mas com certeza isso nos faz lembrar da importância da conexão humana nesses tempos de acesso à informação de dados, de fake news.”

E menos autêntico, chegaria até a dizer. 

Nós sabemos que através do digital, conseguimos desenhar vidas que não necessariamente refletem nosso eu autêntico. Eu sei bem pois quando trabalhava no Tinder análises feitas mostram que as pessoas têm menos receio de mentir quando online do que na vida real.

Ou seja, na quarentena senti falta da espontaneidade. Da conexão. 

Da autenticidade.

E sendo autênticos, nos permitimos aos outros serem autênticos com a gente. A Melinda, em seu discurso, faz essa ponte que se você se conecta com os outros você dá vida aos seus superpoderes, pois você se confronta com os outros, enquanto sendo um lobo solitário, mesmo tendo esses superpoderes (que podem ser talentos, conhecimento, etc) dificilmente você vai conseguir ter o impacto que você quer. 

Nós frequentemente temos essa imagem de indivíduos isolados sendo os super heróis que transformam o mundo. Quase super homens como Nietzsche diria, ou super mulheres óbvio, mas ser superior aos demais que formariam o modelo ideal para elevar a humanidade. Mas a verdade é que cada super herói tem pessoas atrás que fazem os superpoderes se concretizarem. Literalmente.

Pegue o Homem Aranha, por exemplo: o tio Ben, que inclusive foi a quem famosamente Stan Lee deu as palavras “com grandes poderes vem grandes responsabilidades”, é uma pessoa importantíssima para o Peter Parker, e mesmo que falecida ele aparece de frequente em flashbacks. 

Pegue o Hulk: ele também, com sua força bruta, era constantemente acompanhado por um jovem Rick Jones.  Até o Batman, o super herói solitário por antonomásia, tinha o Robin como fiel companheiro e o mordomo Pennyworth cuidava de todos os aspectos da vida dele, para que ele pudesse desempenhar seu papel de super herói em pleno. 

Ou seja, sozinhos não somos ninguém. 

Podemos ter o intelecto do mundo, ser extremamente talentosos em algo, ou até ser os mais ricos do mundo, mas, como você deve lembrar do episódio do Yuval Harari, se somos deixados sozinhos em uma ilha deserta com um chimpanzé, ele vai saber sobreviver muito melhor que a gente.

Vamos deixar a ilha deserta e vamos fazer o exemplo de um livro. 

Nós muitas vezes criamos imagens quase míticas de escritores quase eremitas, que sozinhos transmitem sua mensagem do mundo desde um lugar isolado, quase na imagem romântica do Henry David Thoreau, escritor de Walden: A vida nos bosques, que escreveu o livro isolado por dois anos numa casa em Walden pond, no século 19. 

Mas tem tantas conexões atrás de um livro que a gente de frequente nem imagina: tem as conexões intelectuais que fizeram o autor desenvolver as ideias do livro (e podem ser milhares ao longo de uma vida), tem as conexões de negócio, desde editores, redatores, gráficas, assessores, etc, até as conexões familiares que garantem que o autor não esqueça de comer quando está imerso no trabalho, entre outras coisas! 

Já parou para ler as páginas de agradecimentos de livros? Bom, muitas vezes são um capítulo em si só: no caso do meu “6 Competências para Surfar na Transformação Digital” foram 2 apenas, mas garanto que sintetizei muito e na verdade os agradecimentos são muito mais!

Isso tudo pra publicar em um livro. 

Então imagine para montar uma organização que tem o objetivo de dar a todas as vidas do mundo o mesmo valor? Que é a maior instituição filantrópica do planeta que tem 46 bilhões de dólares doados, criada por “impacientes otimistas que estão trabalhando para reduzir a igualdade no mundo”, como está escrito no site deles? Que trabalha em 16 linhas de pesquisa diferentes, desde o combate a malária, a erradicação da pólio e até a transformação do sistema educacional dos Estados Unidos? Como duas pessoas poderiam tomar decisões tão amplas, variadas e complexas, se realmente eles não fossem tão fãs de quebra cabeças primeiro rs, e fossem grandes geradores e apreciadores de conexões! 

Isso seria simplesmente impossível, e é por isso que é tão preciso. 

E a verdade é que esse conceito de conexão não nasceu na entrevista da Oprah, de onde foi pego esse áudio, mas a Melinda falou disso a primeira vez num discurso que fez na Duke University, de fato a faculdade em que ela se formou, em 2013. E no discurso, que é inspirador mas extremamente longo e não coube aqui, ela toca nos seguintes pontos ao falar sobre conexão, que acho extraordinários. 

Primeiro ponto: use a tecnologia como uma plataforma para inspirar, ou seja, a tecnologia é um meio para alcançar o fim, que é uma conexão profunda, humana. A tecnologia te proporciona escalar essa conexão mas não é um fim em si só.

Segundo ponto: olhe para os outros como para você, não de forma diferente. Ou seja, os contextos externos podem te fazer ver os outros de forma diferente, ainda mais sendo uma das mulheres mais ricas do mundo. Foque na única coisa que te faz comum a outros sete bilhões de pessoas, em vez de focar nas diferenças: o que te faz comum é a humanidade. Ponto.

Terceiro, quando tomar decisões, foque na ética. Aqui ela resgatou uma famosa frase do Martin Luther King que dizia que “através de nossos avanços científicos e tecnológicos, fizemos do mundo uma comunidade. Mas não tivemos ainda o compromisso ético de fazer dele uma irmandade”, pra dizer que o que falta para fazer do mundo uma irmandade é apenas a conexão empática, ética e humana. 

A responsabilidade de fazer isso, ainda mais no mundo pós-crise, está apenas com a gente.

E já que estamos falando de mudar o mundo, e já tocamos na atividade incrível que a Bill e Melinda Gates Foundation está fazendo, vamos ouvir mais um áudio da Melinda, dessa vez sobre uma abordagem inovadora no mundo das ONGs e instituições filantrópicas. Escuta aí!

“Eu e Bill começamos a aprender que milhões de crianças estavam morrendo de toda uma série de coisas, sim, crianças. Quando você olha para as mortes infantis, mede as mortes na infância com menos de cinco anos, é natural que fique assustado. E havia duas coisas que nos confundiam, realmente. Uma delas foi: por que essa inovação, essa incrível inovação da biologia que temos nos Estados Unidos e que tomamos como garantida ou no Reino Unido ou no Japão, tipo uma vacina que você cresceu e recebeu como criança, por que são necessários de 15 a 20 anos para ela chegar ao mundo em desenvolvimento? O que acontece com o sistema, que faz isso acontecer?  Quando eu e Bill começamos a aprender sobre isso e pesquisar mais sobre o tema, chegamos à conclusão que podíamos fazer algo sobre isso. Esse atraso não deveria ser de 15 a 20 anos. Deveria ser de um ano, basicamente, ou menos. Não há razão para tanto tempo. E a segunda coisa é que começamos a dizer que muitas mortes infantis ocorrem porque temos vacinas que não chegam a mundo em desenvolvimento. E sim, temos soluções para isso. São doenças como rotavírus, uma enorme doença diarréica. Nos EUA ou em qualquer às desenvolvido do mundo, você não morre de rotavírus, as crianças não morrem disso. Portanto, chegamos a conclusão que sim,  existem falhas de mercado. E veio o questionamento, por que uma vacina contra o rotavírus se as grandes empresas consideravam que não havia um mercado mundial rico para vacina contra diarréia ou pneumonia?  E, novamente, pensamos que poderíamos estimular as empresas farmacêuticas por meio de uma parceria público-privada a começar a criar vacinas, se pudéssemos garantir a elas um mercado de milhões de crianças recebendo essa vacina e depois sendo pagas por ela no mundo em desenvolvimento, que pagavam apenas um valor um pouco acima do custo. Mas milhões de doses, se pudéssemos nos comprometer com um mercado e sabíamos que a demanda estaria lá. Poderíamos incentivá-los com os dólares que iriam custar a pesquisas para realmente criar essas vacinas. E isso é, de fato, o que aconteceu. Atualmente, existe uma vacina contra rotavírus no mercado.”

“A cada ano, 2 milhões de pais enterram seus filhos por causa de diarreia”. Essa frase poderosíssima ressoa na minha cabeça até hoje, e me lembra das disparidades do mundo em termos de acesso a um dos direitos mais básicos, de acesso à saúde. 

Doenças que por muitos aspectos nos achamos tão desimportantes porque temos acesso rápido a remédios que as combatem com eficácia, ainda matam muitas pessoas. Diarreia, novamente, é até motivo de risos e brincadeiras quando estamos em grupos de adultos, mas é a segunda maior causa de mortalidade infantil no mundo, após a pneumonia, matando 2.195 crianças por dia. Terrível. 

Embora haja tratamentos econômicos e eficazes para a diarreia, a doença mata mais crianças do que a aids, a malária e o sarampo juntos, segundo dados do UNICEF. 

E também falando em Aids e malária, a Bill & Melinda Foundation faz um incrível trabalho para erradicar essas doenças, assim como faz um trabalho incrível sobre em termos de vacinas contra a pólio. Eu fiz meu mestrado em Relações Internacionais na School of Advanced International Studies da Johns Hopkins University, e a maioria dos colegas foram trabalhar em instituições internacionais: em particular o Joseph Wilson, meu colega de aula, é Deputy Director, Strategy Planning and Management da Foundation, e tenho realmente uma grande admiração pelo que ele faz.

Particularmente no trabalho com vacinas,e aqui já chegamos na primeira pergunta da Melinda: porque demora tanto uma vacina a chegar aos países em desenvolvimento? 

Bom, podemos dizer que tem múltiplas razões e chegaremos as principais, mas uma coisa que me espanta é que em alguns países, vacina ainda é vista como uma conspiração do ocidente para fazer com que as crianças fiquem inférteis ou tenham outras doenças. Em Paquistão, o problema é seríssimo: extremistas religiosos e até talibãs emitir fatwas, ou seja proibições contra a vacina da Pólio, ao ponto que os trabalhadores da área de saúde que vão em vilarejos remotos ou apenas em bairros mais radicalizados das grandes metrópoles do Paquistão em Karachi, arriscam próprias vidas: apenas em 2019, tiveram dezenas de vacinadores assassinados e por isso fica até mais difícil de recrutá-los. 

Segundo ponto é que muitas vezes nessas regiões, os mapas não são bem desenvolvidos e por isso algumas áreas ficam descobertas pois nenhum vacinador vai lá. No documentário sobre o Bill, ele e a Melinda contam como mesmo aumentando os investimentos na Nigéria, as mortes de pólio não caiam. Ai entenderam que várias áreas não eram visitadas pois um vacinador achava que estava na área de outro, e vice versa, e ninguém ia. Com um trabalho de mapeamento, eles conseguiram resolver e melhorar os números na Nigéria. 

E a segunda pergunta da Melinda está relacionada a primeira: muitas dessas vacinas nem chegam, simplesmente porque a indústria farmacêutica não está interessada nela. Voltando a diarreia, por exemplo onde a morte é causada pelo rotavírus, nos Estados Unidos é difícil morrer por isso e consequentemente sendo que não é necessária nos estados unidos, a indústria farmacêutica não enxerga demanda para essa vacina e simplesmente não a produz. 

Bom, aqui nem precisamos ser economistas para entender que qualquer negócio é baseado em demanda. Sem demanda, simplesmente não há mercado. O modelo tradicional de microeconomia (quem fez, tente lembrar os aprendizados!) da oferta e da demanda, diz que simplesmente um mercado é em equilíbrio quando demanda e oferta estão iguais. Nesse caso, das vacinas para o rotavírus, simplesmente elas não são produzidas ou priorizadas porque a demanda não é percebida…o paradoxo é que a demanda é gigante, mas ela não é percebida como tão gigante por 2 motivos principais: 1 é que são vários países diferentes e a demanda é dada pela somatória dos vários países, e 2 porque o preço nem sempre é atrativo, pois o poder aquisitivo dessas regiões é menores, e o preço as vezes pode apenas ficar pouco acima do custo, sem margem como diz Melinda. Mas através de  parcerias público privada, isso é possível de se resolver. 

Vou usar um exemplo oposto, e dizer que certamente o que não falta é demanda para uma vacina do coronavírus. É por isso que a indústria farmacêutica se mobilizou em massa, e em uma rapidez surpreendente comparada aos ciclos tradicionais de R&D da industria, que leva em média de 7 a 12 anos desde o descobrimento de uma molécula até ter o produto no mercado. segundo o Milken Institute, até Abril 2020 tinha em torno de 50 vacinas para a Covid-19 e 100 tratamentos em desenvolvimento, e centenas de testes clínicos foram registrados na WHO, mas segundo o MIT, ainda devem demorar de 12 a 18 meses para uma vacina chegar no mercado. E a demanda é tão grande e a preocupação tão profunda, que a Sorrento Therapeutics, uma empresa americana de biofarma que anunciou ter descoberto um anticorpo  para o Covid, viu suas ações crescerem de 158% em um dia só. E que o governo da Índia chegou até a temporariamente banir as exportações de hidroxicloroquina, meio que deixando o mundo na mão pois ela produz 70% da hidroxicloroquina do mundo. Ou seja isso, é o que você tem quando a demanda é grande e evidente. E sabemos que o Covid-19 será um evento que marca a história da nossa civilização: o Pedro Aihara nos conta aqui o que ele acha:

“O grande ensinamento dessa crise para a humanidade, é que nós precisamos ter um pensamento mais coletivo, e que a gente precisa horizontalizar mais as nossas relações. Se antes cada um ficava ali no seu feudo enclausurado e os problemas dos outros não nos afetavam. Agora isto é uma pandemia que atinge a todos indistintamente. Ela atinge independente de raça, credo ,religião, de origem e ecologia, mas consegue perceber que a mesma doença que pode te afetar, que pode infectar uma pessoa querida para você e pra mim também que me coloco no lugar de sofrimentos de tristeza e que isso é comum a todos nós. Eu consigo perceber em você um semelhante e consigo perceber que há muito mais pontos de conexão do que a diferença entre a gente. E aí eu consigo enxergar que somente por meio da inteligência colaborativa da cooperação da solidariedade é que eu vou conseguir resolver esse problema e tantos outros problemas que afligem a sociedade como a fome, a miséria e a desigualdade social. Como eu consigo perceber isso, eu chego a conclusão que só vai ser bom pra mim quando estiver bom para todo mundo. E aí eu tenho oportunidade de estabelecer um aprendizado, um modo de dispensar uma postura de lidar com a vida e com a sociedade, que vai ser capaz de estabelecer uma nova forma de se pensar e com isso vai ter um mundo muito mais justo, muito mais isonômico e esse eu acho que a grande ação que a gente precisa nessa crise é aproveitar esse momento como uma oportunidade de estabelecer uma nova forma de se pensar mesmo depois dessa crise e dessa forma a gente vai caminhar junto para um lugar muito mais longe. Com certeza.”

Quando a demanda é menor, e menos evidente, você tem essa situação que economistas chamam de falha de mercado, com uma alocação suboptimal de bens mesmo quando tem demanda. E como resolver essa falha de mercado?

Em um outro famoso TED Talk dela, a Melinda explica que ela se inspira na Coca-Cola para isso. O que? Na Coca-Cola? Eu fiquei de cara a primeira vez que ouvi o discurso dela, achei que fosse uma brincadeira….mas não era. 

Nele, ela diz que pra qualquer lugar no mundo ela for, e eu concordo com isso, ela sempre acha Coca-Cola. Confesso, pra mim também é evidentemente a única coisa que achei em comum entre o Egito e a Colômbia, entre a Rússia e Israel, no Madagascar e A Jordânia. Em todo lugar do mundo que eu fui, achei Coca-Cola, é verdade!

E esse alcance é o que vacinas, e preservativos precisam mas não conseguem! A Coca-Cola vende mais de 1.5 bilhões de unidades todos os dias, ou seja, praticamente se vende uma Coca Cola por dia em cada 5 pessoas na terra. Bizarro. 

Ela diz que essencialmente tem 3 coisas que eles aprenderam, e cada ONG pode aprender com a Coca Cola, para alcançar essa capilaridade e escala global: 1 eles coletam dados em tempo real e imediatamente ajustam o produto como consequência, 2 eles se relacionam com as comunidades e aproveitam os talentos locais, e 3, óbvio, fazem um marketing incrível.Ou seja, se você identificar demandas não atendidas pelos mercados no que são  chamadas falhas de mercado, e através de uma parceria público-privada você opera como uma Coca-Cola da vida, você consegue resultados extraordinários. No caso deles, conseguiram uma nova vacina contra o rotavírus, e um contra o pneumococo. 

O que mais conseguimos fazer para o mundo, ainda mais em um mundo que tanto precisa de inovação na área de saúde? 

Pois a responsabilidade está com cada um de nós. 

Para encerrar esse episódio eu quero usar mais uma frase da Melinda em que ela fala:

“Temos que ter cuidado com o modo como usamos a luz que brilha em nós.

Eu não acho essa frase motivacional. Eu acho ela uma frase reflexiva. Sabe por que?

Porque demoramos a perceber que existe uma luz que brilha em nós. Somos habituados a não nos enxergarmos. Enxergamos soluções, problemas, ideias e trabalho. E não pense que seja ruim enxergar tudo isso. Ter uma visão ampla é incrível, desde que você não se esqueça de olhar para si. A maioria das respostas que temos para as nossas angústias e ansiedade está em nós mesmos. Somos nós que escrevemos a nossa história. 

Procure a luz que brilha em você, porque só assim você irá conseguir usá-la para iluminar o seu caminho, e reluzir o que há de melhor em você.  

Você já encontrou a luz que brilha em você e descobriu o quão importante ela é na sua vida pessoal e profissional? 

Se quiser que a sua resposta faça parte do próximo episódio do Podcast, compartilha comigo pelo WhatsApp 11 972262531 mandando um áudio de boa qualidade.  As melhores 5 respostas irão estar no podcast e também irão receber o meu livro “ 6 Competências para Surfar na Transformação Digital” de presente na sua casa.

Ah, se você gostou desse episódio, tira um print e me marca no instagram ou no LInkedIn! Vai ser o máximo ver o que você achou! Qualquer dúvida, comentário ou até mesmo reclamação é só entrar em contato pelos sites Andrea Iorio.com.br, metanoialab.com.br , ou por meu linkedin ou instagram!

Um grande abraço e até a próxima quarta feira às 8h30 da manhã com um novo episódio do Metanoia Lab!

 

 

 

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